Louis Braille
Há um sorriso esperando você.
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Histórico da Escola Louis Braille
Lori Huber( 1ª Diretora da Escola Louis Braille)
Lory Huber nasceu em Barra do Ribeiro a 04 de julho.
Faleceu em 11 de dezembro de 1989.
Lori Huber por ela mesma ( entrevista datada de 31 de outubro de 1976-Gazeta Pelotense)
“Não nasci cega, mas com uma deficiência congênita. Somente quando eu tinha 5 anos, porém, meus pais notaram que eu enxergava pouco, porque, quando anoitecia, eu procurava as paredes para me orientar. T odos os recursos médicos foram buscados, e foi feito tudo o que era possível. A despeito disso, fui perdendo a visão gradativamente como num entardecer tranquilo. Até os 11 anos, pude frequentar, cada vez com mais dificuldade, o grupo escolar de Barra do Ribeiro, onde nasci. Depois disso, fui obrigada a deixar a escola, quando passei a estudar em casa com professores particulares.
Com relação ao meu problema, meus pais foram pessoas extraordinárias. Jamais os vi lamentarem na minha presença, que estivesse perdendo a visão, e jamais ouvi deles a expressão ” coitada da minha filha”.
Aos 15 anos deixei de andar sozinha na rua, embora ainda tivesse uma visão muito reduzida. Nesta época, minha mãe compreendeu que tinha de me dar um rumo na vida, e ela mesma começou a ensinar-me a fazer as coisas pelo tato. Escolas especializadas, só havia em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, e ela mesma tomou a seu cargo a minha educação. Quando completei 16 anos fui como interna para o colégio Santo Antônio, em Estrela, educandário em que haviam estudado minha mãe e minha irmã mais velha. As irmãs franciscanas, sob a orientação dee minha mãe, seguiram a mesma linha adotada em casa, com base nos mesmos direitos e obrigações. Durante 3 anos estudei como ouvinte, porque não era permitido a um cego, naquela época frequentar oficialmente a escola. Eu prestava exames orai, para dar conta da matéria, mas não recebi diploma. Esse tempo foi muito valioso na minha formação porque lá, além de estudar as matérias curriculares e aprender datilografia e trabalhos manuais, aprendi, principalmente, a viver fora de casa.
Quando eu estava com 19 anos, tomei o primeiro contato com o sistema de leitura Braille, em Porto Alegre, através de duas moças cegas, Anita e Amanda Medina, que se dedicavam ao folclore sul-americano e estavam na capital para cumprir um contrato com a rádio Farroupilha. Para mim, isso foi um passo muito importante. Dois anos depois, em 1943, Dª Lídia Mosquette idealizou fundar em Porto Alegre uma escola para cegos, o que efetivamente realizou, com a fundação do Instituto Santa Luzia. Nessa ocasião, Dª Lídia soube, através de parentes meus, que eu conhecia o sistema Braille, e convidou-me para ajudá-la na divulgação do projeto. Prontifiquei-me a colaborar com ela, dando tudo o que tinha de idealismo em prol dessa grande causa. Com ela, visitei órgãos de imprensa, o comércio, os poderes públicos, todos, enfim, que pudessem dar algum tipo de apoio ao nosso sonho. A vinte de setembro daquele ano, a escola foi fundada. Lá permaneci por alguns meses, morando no próprio instituto e lecionando o pouco que sabia, até que as irmãs vicentinas foram convidadas por Dª Lídia para tomarem conta da casa.
Depois disso, regressei a Barra do Ribeiro, e passei, alguns anos estudando muito, viajando bastante, para adquirir novos conhecimentos e fazer alguns cursos extra-oficiais.
Em 1952, fui convidada pela Biblioteca Pública Pelotense, por intermédio da então diretora, Elisa Alves da Fonseca, para começar em Pelotas um trabalho em prol da integração comunitária do deficiente visual. Aceitei e transferi residência para esta cidade, indo morar no colégio São Francisco. Nesta época, ratificando mais uma vez a educação que me havia dado, meu pai disse-me apenas: queres ir, vai. Não mandou ninguém comigo, e tampouco veio a Pelotas saber as condições em que eu passaria a viver. Meu velho, eu acho, foi sensacional com essa atitude, porque me deu plena liberdade de ação, como teria dado a qualquer dos filhos.
A Escola Louis Braille foi idealizada pelo Dr. Guilherme Echenique Filho, e nasceu como departamento da Biblioteca Pública Pelotense. Cheguei a Pelotas em 17 de maio e a 21 do mesmo mês, já estava contratada como diretora e professora da escola. Fizemos, então, uma chamada aos cegos da cidade, e no dia 10 de junho, a escola foi fundada com apenas 6 alunos. O material didático foi todo confeccionado em Pelotas com a ajuda de Dª Ignez Figueiredo, que muito colaborou conosco. Esse material constava de mapas, cartilhase coisas do gênero, sendo que os aparelhos especializados eram de minha propriedade dos quais eu tinha uma pequena coleção)reguetes e punções, para escrever e cubarítimos, para os cálculos de matemática). Na escola, eu ensinava os alunos a ler e escrever, a calcular, e dava, ainda, aulas de datilografia trabalhos manuais, canto e música. Ensinava, em suma , tudo o que eu sabia. Contamos sempre com o máximo apoio das autoridades educacionaisdo município e do estado e só assim, conseguimos levar avante esse grande ideal. Já na minha família, aprendi, aprendi um grande amor ao próximo, e fazer do cego um cidadão útil foi o grande sonho da minha vida. Faz^-los esquecer, como eu esqueço, a própria cegueira, foi minha grande meta.
Com o carinho, a solidariedade de tantos amigos, a Escola chegou a ser o que é hoje, com uma equipe de 9 professores, mais um psicólogo e um assistente social, que atendem atualmente a36 alunos. Em 1961, o instituto adquiriu personalidade jurídica, tendo recebido do governo do Município e do Estado, respectivamente, o terreno e o prédio em que hoje se encontra. Como sociedade, possui uma diretoria. Nossoas alunos permanecem aqui até o 4° ano primário, quando são encaminhados às escolas comuns, sem perder, no entanto, o atendimento itinerante do instituto.
Minha vida , em resumo, é a própria vida da escola.. Particularmente, procuro viver de forma independente, preparando eu mesma minha comida e meu café e fazendo lidas em casa. E consegui, realmente, tornar-me independente, ter uma vida absolutamente normal. Essa capacidade, com a palavra e com o exemplo, procuro transmitir aos meus alunos.
Acho fundamental que o cego possa mostrar aos outros sua independência. Para ilustrar o que dig, basta assinalar que uma das minhas maiores alegrias, é poder entrar num ônibus e ser uma passageira comum, sem despertar nos outros excesso de consideração.
Como distração, eu tenho o bordado, a música, que pode ser clássica ou popular (eu não gosto muito dessa barulhada moderna), o bordado, a leitura, o estudo de alemão e, quando possível(por exemplo quando vou à fazenda de um sobrinho em Camaquã), os passeios à cavalo. Todos os anos, ainda vou ao Rio de Janeiro, onde participo da Assembléia Anual do Conselho Nacional para Bem-estar do Cego, em que há sempre muita alegria, ao reencontrar amigos de todo o Brasil que lutam pela mesma causa(nessas ocasiões aproveito também para fazer um pouco de turismo.
Do mundo físico, tenho poucas lembranças. Não recordo os rostos das pessoas, mas uma impressão que tenho nítida na memória é a das noites de lua sobre o rio Guaíba, lá em Barra do Ribeiro, com aquela faixa de luar prateando as águas. Com essa imagem, que vem da minha infância, posso dizer que guardei apenas as belezas do mundo. Mas a beleza não existe penas para ser enxergada. Há poucos dias, passando por um jardim florido, alguém que estava comigo falou que aquelas flores eram uma festa para os olhos, ao que eu retruquei: não só para os olhos, mas também para o coração. Realmente, não lastimo o fato de não poder ver, eu consigo sentir a beleza das coisas dentro de minha própria alma, através das palavras de outras pessoas.
Tenho muita fé em Deus, e a Ele me entrego totalmente, não de uma forma fatalística, mas por verdadeiro amor. Dessa forma, nada me assusta e nada me preocupa. Minha vida é tranquila, serena, cheia de amor. Exatamente como a de uma pessoa qualquer que consegue ser feliz.”
Leandro – aluno adulto de nossa escola palestra em Porto Alegre
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